Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 2

 R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 2, p. 494-555, set.-dez., 2019  536 TOMO 2 de acordo com um plano unitário, que estabeleça como os recursos e bens sociais serão divididos em atenção a um padrão pré-definido. 71 As varia- ções do coletivismo diferem entre si quanto à finalidade que a atuação social concertada deve concretizar, e distinguem-se do liberalismo preci- samente pelo último negar a direção da atuação da sociedade em busca da satisfação de objetivo(s) particular(es). Note-se que tais objetivos sociais são frequentemente descritos de maneira vaga: v.g., “bem comum”, “interesse público”, etc. Porém, a dire- ção total das nossas atividades de acordo com tais finalidades pressupõe que as necessidades e desejos de todos os indivíduos sejam postos numa escala de valores. Porém, esse código moral completo - se existisse - não poderia ser concebido nem pelas mentes mais brilhantes, além de haver nas sociedades pluralistas contemporâneas um profundo desacordo so- bre o seu teor. Eis a premissa fundamental do liberalismo: os limites da razão humana impedem que os indivíduos vislumbrem as necessidades e preferências de todos os membros da sociedade, de modo que tal escala só pode existir nos pensamentos de cada indivíduo, os quais conflitam, reiteradamente, entre si. Daí extraírem os liberais que o indivíduo deve, dentro de certas balizas, seguir os seus próprios valores e preferências ao invés dos alheios, de maneira a ser, nesse âmbito, o juiz supremo das suas próprias finalidades. Entretanto, o planejamento econômico, ao exigir uma direção única das atividades econômicas, tende naturalmente a totalitarismos, na medida em que instrumentos típicos das democracias liberais, como, p.ex, a com- petência de os parlamentos definirem as normas gerais regentes da vida em sociedade, a separação de poderes e os seus mecanismos de freios e contrapesos, etc., criam embaraços à implementação de um plano único e coordenado. Nessa linha, a oposição entre planejamento econômico e de- mocracia surge em virtude de a direção da economia ser feita por um cor- po de técnicos com um poder supremo que não pode ser obstaculizado pelas instituições democráticas. Assim, a democracia apresenta um obstá- culo à supressão da liberdade que é exigida pelo planejamento econômico, ou, nas palavras de Hayek “o planejamento conduz à ditadura porque esta é o instrumento mais eficaz de coerção e de imposição de ideias, e como 71 HAYEK, Friedrich A. von. O Caminho da Servidão ., Op. cit., p. 34.

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