Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 2
535 R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 2, p. 494-555, set.-dez., 2019 TOMO 2 tal conhecimento prático que é fundamental para os atores do mercado. 66 Daí a conclusão de que, ao contrário do que pensam os socialistas, não há alternativa viável à economia de mercado, pois o sistema de preços não pode ser substituído por qualquer mecanismo teórico de simulação de mercado. Três ideias são, portanto, cruciais para a construção da tese acerca da impos- sibilidade prática do cálculo econômico em economias planificadas: (i) a ativi- dade econômica depende do conhecimento sobre as necessidades, vontades e disponibilidades financeiras dos indivíduos em geral; (ii) esse conhecimento prático se encontra disperso na sociedade, não sendo retido por nenhum indivíduo; (iii) na livre troca de bens e serviços, o mecanismo do preço dá acesso ao encarecido conhecimento. 67 Tais noções assumiram destacado relevo na construção da tese acer- ca do caráter liberticida das economias planificadas, desenvolvida em seu clássico “O Caminho da Servidão” (1944). Como esclarecido por Hayek no prefácio à edição norte-americana de 1975, o propósito básico do livro era formular uma advertência à intelligentsia socialista inglesa, no sentido de que os fascismos e o socialismo 68 são variações do mesmo totalitarismo que o controle centralizado da economia tende a produzir, e que o Estado do Bem-Estar Social, embora não pretenda reconstruir a sociedade desde os seus alicerces, ao chamar para si a tarefa de realizar a justiça social, não raro se vale de instrumentos que também são incompatíveis com uma sociedade livre. 69 Hayek considera falaciosa a tentativa de os pensadores socialistas se autointitularem herdeiros da tradição da liberdade no Ocidente, mediante a construção do conceito de liberdade real. 70 Com efeito, o que fora di- vulgado como o caminho da efetiva liberdade não é outra coisa senão o caminho da servidão. Cumpre esclarecer que doutrinas coletivistas, como a socialista, pressupõem o planejamento da economia, assim compreen- dida a atribuição a uma autoridade central do poder de dirigir a economia 66 GRAY, John. Hayek on Liberty . p. 38/39. 67 SCRUTON, Roger. Hayek and conservatism. The Cambridge Companion to Hayek . Op. cit.. p. 210. 68 A bem da clareza, convém elucidarmos o conceito de socialismo com o qual Hayek trabalha “o socialismo significa a extinção da iniciativa particular, da propriedade particular dos meios de produção e a criação de um sistema de “economia planejada”, no qual o empreendedor que trabalha visando ao lucro é substituído por um órgão central de planejamento”. V. HAYEK, Friedrich A. von. O Caminho da Servidão . 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1977, p. 31. 69 HAYEK, Friedrich A. von. O Caminho da Servidão . Op. cit., p. XVII. 70 V. 3.2.
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