Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 2

 R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 2, p. 494-555, set.-dez., 2019  534 TOMO 2 Platão e no cristianismo, foi adotado por doutrinas sociais importantes e variadas (socialismo, liberalismo-igualitário (Rawls) e mesmo por liberais clássicos, como Locke), atingindo a sua mais completa expressão com o racionalismo de René Descartes. Segundo tal perspectiva, as instituições sociais só servirão aos nossos propósitos se tiverem sido concebidas pela vontade humana e lograrem concretizar a finalidade que inspirou a sua criação. Entretanto, Hayek salienta que muitas instituições sociais resulta- ram de costumes, hábitos ou práticas que não foram inventados, nem são explicados por um raciocínio silogístico. A par disso, o planejamento de uma ação pressupõe o conhecimen- to dos fatos relevantes. Embora tal exigência seja razoável para um enge- nheiro que constrói uma casa, ou para os dirigentes de uma organização hierarquizada, como uma empresa ou um exército, o conhecimento de todos os aspectos relevantes do desenvolvimento da sociedade revela-se inviável. Nesse particular, não podem ser olvidados os limites da razão hu- mana , bem ilustrados pela máxima socrática, segundo a qual o reconheci- mento da nossa ignorância é o começo da sabedoria. De fato, pouco se atentou para a inelutável ignorância dos homens a respeito da maioria das bases em que se assenta o processo da civilização, 65 revelando-se arro- gante a autoatribuição pelo homem da capacidade de planejar, controlar e redirecionar o desenvolvimento da sociedade. Ao contrário, a sociedade se compõe de uma rede de práticas e de tradições que fornecem ao indi- víduo informações que guiarão as suas ações individuais e permitirão a realização do seu próprio ideal de vida boa. A imposição por outros indi- víduos (ou pelo governo) de uma determinada finalidade que deva guiar a evolução da sociedade só bloqueará a plena transmissão e o crescimento do conhecimento, além de causar prejuízo à tutela da liberdade individual. É exatamente a impossibilidade de qualquer cérebro humano, ou mes- mo de um computador possuir e processar tal gama de informações, que explica o fracasso dos cálculos realizados pelo planejamento econômico nos países socialistas. Somente o sistema de preços pode condensar tal espec- tro amplíssimo de informações. O conhecimento produzido pelo sistema de preços pode ser usado por todas as pessoas, mas ninguém o possuiria na ausência de tal sistema, pois só a operação do próprio mercado pode extrair 65 HAYEK, Friedrich A. von. Os Fundamentos da Liberdade ,. Op. cit., p. 19.

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