Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 1
189 R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 1, p. 169-204, set.-dez., 2019 TOMO 1 de reconhecimento cometidas pelas próprias vítimas 57 , ou seja, são, em grande medida, as próprias mulheres quem reproduzem e alimentam as referidas falhas, exigindo, cada qual de si própria e das demais mulheres, o cumprimento de estereótipos femininos que lhes são impostos. E isso ocorre de maneira quase inconsciente, sem queixas imediatas, inclusive porque as mulheres acabam aprendendo a vivenciar o papel social femini- no, em algum grau, com felicidade e prazer 58 . Correlacionando-se à paradoxal posição das mulheres no sistema de desvalorização sociocultural que as oprime, a figura dos homens nesse mes- mo sistema mostra-se, também, contraditória. Se os negros têm “inimigos” dos quais, em geral, podem se desvencilhar estrategicamente nas lutas por reconhecimento, os homossexuais já lidam com isso de maneira mais com- plicada, uma vez que são, com frequência, os próprios pais que os oprimem. No caso das mulheres, todavia, a proximidade com o “inimigo” costuma ser potencializada de tal forma que praticamente inviabiliza uma oposição es- tratégica em relação aos homens – a qual poderia, no entanto, ser proveitosa em determinadas circunstâncias ou estratégias políticas. Passando, então, à proposta de classificação das políticas públicas de reconhecimento em matéria de gênero, sugere-se, didaticamente, sua divisão em três grandes grupos: (b.i) políticas de respeito às diferenças biológicas, (b.ii) políticas de respeito às diferenças socioculturais, e (b.iii) políticas de nomeação e combate à discriminação. As políticas de respeito às diferenças biológicas das mulheres procuram evitar ou combater a transformação de distinções naturais em instrumen- tos de marginalização ou inferiorização social. Em outras palavras, procu- 57 Sobre o tema, veja-se a observação de Pierre Bordieu: “[ M]ais surpreendente é ainda que a ordem estabelecida, com as suas relaç es de dominação, com os seus direitos e os seus atropelos, com os seus privil gios e as suas injustiças, se perpetue infinitamente com tanta facilidade [...] Encarei sempre a dominação masculina, e o modo como ela é imposta e suportada, como o melhor exemplo dessa submissão paradoxal, resultante daquilo a que chamo a violência simbólica, violência suave, insensível e invisível para as suas próprias vítimas que, no essencial, se exerce pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento ou, mais concretamente, do desconhecimento, do reco- nhecimento ou, em última instância, do sentimento ” (BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Trad. Julia Ferreira. Lisboa: Relógio D’Água, 2013, p. 13-4) 58 O gênero não traz apenas experiências ruins. Há muitas mulheres que, verdadeiramente, gostam de passar a maior parte de seus dias cuidando do lar e de seus familiares, que apreciam quando os homens abrem a porta do carro para elas, ou que se sentem bem cumprindo rituais de beleza. Como afirmou Stuart Mill, “ as mulheres não são criadas apenas para servirem aos homens, mas para desejarem servi-los ”; e assim se dá. (MILL, Stuart. The Subjection of Women . 1869, disponível em http:// www.constitution.org/jsm/women.htm, último acesso em 10.06.2018).
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