Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 1
R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 1, p. 146-168, set.-dez., 2019 158 TOMO 1 partir de sua inserção social, os mercados passaram a ser estudados concreta e historicamente, e não apenas como pontos de equilíbrio que já se conhece- ria de antemão. Nesse cenário, em que as interações sociais e as instituições importam, o estudo das motivações dos agentes e da formação institucional tornou-se relevante. Com isso, a política pôde voltar aos debates econômi- cos com outros adjetivos. As soluções para o desenvolvimento econômico e social passaram a contar também com a análise dos meios pelos quais os resultados são produzidos, em vez de focar apenas no produto final das equações econômicas. A ideia de uma ação econômica amoral e que se jus- tifica apenas pelas utilidades que proporciona foi sendo descartada pelas principais correntes do pensamento econômico contemporâneo. Estava aberta, assim, a possibilidade de se recuperar o valor da de- mocracia e rediscutir a sua relevância para o desenvolvimento econômico e social. A própria medição de desenvolvimento foi alterada, afirmando-se que “ uma concepção adequada de desenvolvimento deve ir muito além da acumulação de riqueza e do crescimento do Produto Nacional Bruto e de outras variáveis relacionadas à renda” 27 . Afirmou-se, assim, que o desenvolvimento deve ser medido pelo aumento das capacidades individuais para “ viver como se gostaria ” 28 e não pela simples acumulação de riquezas. Afinal, seriam as capacidades individuais de agência e de conversão de bens e serviços em utilidades para o bem-estar que determinariam a qualidade de vida dos indivíduos e da sociedade. No entanto, embora as orientações éticas e os arranjos institucio- nais tenham se incorporado ao estudo da economia, porque se mostraram decisivos ao próprio desempenho econômico, as práticas democráticas continuaram a ser encaradas como entraves à eficiência governamental. Os arranjos institucionais de concentração de poder em arenas decisórias permaneceram nos discursos de economistas. A incompatibilidade das práticas democráticas com o desenvolvimento econômico passou a ser advogada, não mais em razão da lógica dedutiva e mecanizada da ciência econômica, mas: (i) pela fragmentação do poder decisório com o conse- quente risco de paralisia do sistema político; (ii) pelo incentivo à produção de governos de coalizão, que desvirtuam a agenda governamental eleita; e (iii) pela dificuldade de identificação da responsabilidade política em um cenário de poder difuso. 27 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. p 28. São Paulo: Companhia das Letras, 2000 28 SEN, Amartya; NUSSBAUM, Martha. The quality of life . Oxford: Oxford University Press, 1993.
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