Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 1
157 R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 1, p. 146-168, set.-dez., 2019 TOMO 1 O ódio que poderia ser oposto à acumulação de riqueza sem con- siderações éticas e limitações políticas foi canalizado para a democracia, desviando o foco das resistências ao modelo econômico que se queria consolidar. A ideia de neutralidade que a economia neoclássica buscava não passava de uma cortina de fumaça dos ideais de livre mercado e de não interferência estatal 23 . Encontrou-se na instabilidade da democracia, inerente a sua na- tureza, o espaço para se cultivar o ódio que poderia ser dirigido ao poder econômico. Além de se afastar um discurso de resistência, fra- gilizou-se a democracia, imobilizando as forças que poderiam colocar em risco o poder econômico. O vício, contudo, não era da democracia. Afinal, “ a democracia não é a “ilimitação” moderna que destruiria a heterotopia necessária à política. Ao contrário, é a força fundadora dessa heterotopia, a limita- ção primeira do poder das formas de autoridade que regem o corpo social ” 24 . A democracia, de todo modo, saiu enfraquecida e foi transforma- da em uma prática esporádica, irracional e que nada poderia contribuir para a eficiência de medidas econômicas. V. A democracia recuperada A partir da década de 80, a visão atomizada da economia foi questio- nada e “ os mercados passam a ser encarados como formas de coordenação social carac- terizadas por conflitos, dependências, estruturas e imprevisibilidades muito distantes da imagem can nica consagrada na teoria do equilíbrio geral ” 25 . A economia iniciou, as- sim, um movimento de reaproximação disciplinar, revisitando alguns pres- supostos da teoria neoclássica. A economia passa a ser pensada, então, de forma inserida, concebendo-se o mercado a partir das interações sociais e não como um modelo objetivo alcançado de forma dedutiva e matemática. Assim, na medida em que se tornaram mais expressivas as correntes do pensamento econômico e sociológico 26 , que concebem a economia a 23 Sobre o tema são relevantes as considerações de MYRDAL, Gunnar. Aspectos políticos da teoria econ mica . p 212. São Paulo: Nova Cultural, 1997. “ Operando com definiç es que pretendem ser universalmente válidas, frequentemente se tem logrado fazer com que um princípio político implícito pareça logicamente correto ”. 24 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia . p 61. São Paulo: Boitempo, 2014. 25 ABRAMOVAY, Ricardo. Entre Deus e o diabo : mercados e interação humana nas ciências sociais. Tempo Social. Revista de Sociologia da USP, v 16, n 2, p 39, 2004 26 A economia institucional e a nova sociologia econômica são exemplos dessa recuperação da economia como uma ciência inserida e dialógica, em que a maneira como a economia se insere na vida social passa a ser relevante para a com- preensão dos mercados.
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NTgyODMz