Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 1

 R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 1, p. 146-168, set.-dez., 2019  156 TOMO 1 político ou metafísico. Todas as práticas profissionais tendem a se banalizar. (...) O médico torna-se pouco a pouco um assala- riado da Previdência Social; o padre, um assistente social e um distribuidor de sacramentos (...). É que a dimensão do sagrado – da crença religiosa, da vida e da morte, dos valores humanistas ou políticos – se enfraqueceu. As profissões que instituíam uma forma, mesmo que indireta ou modesta, aos valores coletivos são afetadas pelo esgotamento da transcendência coletiva, seja religiosa, seja política. A política, assim, enfrentou a ruína na democracia das sociedades de consumo. A arte de viver junto na busca do bem comum, na distinção entre as esferas pública e privada, foi subjugada pela lei da individualida- de consumidora, tratando-se todas as relações sociais sob o modelo da igualdade mercantil 22 . A vida democrática tronou-se, assim, a vida apolítica do consumidor indiferente de mercadorias , descolado de valores e ideologias polí- ticas. E isso era, justamente, o que a economia neoclássica apregoava para a ciência econômica. O descolamento da política e a indiferença dos mercados às estrutu- ras sociais era a receita para a afirmação da autonomia da economia como conhecimento científico. Não se esperava, contudo, que chegasse a des- construir a democracia e aniquilar a ação política voltada à composição de valores que refletissem o bem comum. A busca ilimitada pela riqueza foi, assim, assumida como um fator característico do indivíduo democrático ilimitado, o que auxiliou a edificação de uma visão catastrófica da democracia, pela qual a humanidade destrói a si mesma . A passagem, assim, estava feita. A lógica do capital foi assumida como a lógica do homem democrático. A expansão apolítica e descolada da ética poderia ser imputada à democracia. Com isso, a economia se blin- dou e pôde perseguir o seu ideal de desvinculação das práticas democráti- cas, que, afinal, poderiam desvirtuá-la de resultados eficientes e fragilizar o poder econômico em razão do fortalecimento do poder político. 22 Sobre o ponto é pertinente a exemplificação de Jean-Louis Thiriet, citado por RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia . p 39. São Paulo: Boitempo, 2014: “ Não há mais lugar para nenhum tipo de transcendência, é o indivíduo que é erigido em valor absoluto e, se alguma coisa de sagrado persiste, ainda a santificação do indiv duo, por meio dos direitos humanos e da democracia (...) Eis, portanto, por que a autoridade do professor está arruinada: por essa priorização da igualdade, ele não é mais do que um trabalhador comum, que se encontra diante de usuários e é levado a discutir de igual para igual com o aluno, que acaba por se instalar como juiz de seu mestre ”.

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