Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 1
153 R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 1, p. 146-168, set.-dez., 2019 TOMO 1 Estado dependeriam da redução das arenas políticas. Sem que isso fosse feito, a eficiência da ação pública seria substituída pelo impasse das diver- gências e da busca pela autopromoção individual. A fórmula de um governo econômico de sucesso estava, portanto, posta. A produção de bem-estar social dependeria da blindagem das decisões econômicas de interferências políticas. A teoria neoclássica da economia auxiliou a construção de uma visão da democracia antagônica à eficiência econômica. Com isso, o discurso de ódio à democracia já tinha os seus ingredientes e viu, nessa oportunidade, a chance de questionar os fundamentos dos governos democráticos e a própria submissão dos mercados à autoridade estatal. IV. A estratégia do ódio à democracia 14 O ódio à democracia não é novo, nem teve origem nas razões econômicas dos dois últimos séculos, que, como se detalhou, constru- íram a visão de irracionalidade das práticas democrática e de inaptidão para eficiência governamental. É curioso notar que a própria origem da palavra “democracia” já remonta à expressão de um ódio. Jacques Ranciè- re destaca que democracia “ foi primeiro um insulto inventado na Grécia An- tiga por aqueles que viam a ruína de toda a ordem legítima no inominável governo da multidão ” 15 . A democracia, afinal, colocou em questão a titularidade do poder político daqueles que assentavam a sua fonte na filiação, na lei divina, ou na capacidade técnica. Assim sendo, uma vez afastados os títulos que legitimavam o po- der, o povo pretensamente 16 assumiu o comando de seus Estados e a democracia se afirmou como “ o poder próprio dos que não têm mais título para 14 O título deste tópico é inspirado no livro de Jacques Rancière, que recebeu idêntico nome. 15 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia . p 8. São Paulo: Boitempo, 2014. 16 A derrota das oligarquias foi uma promessa não cumprida da democracia. É o que esclarece BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia; uma defesa das regras do jogo . p 26. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986: “ Considero como terceira promessa não cumprida a derrota do poder oligárquico. Não preciso insistir ainda sobre este ponto, pois se trata de um tema muito examinado e pouco controverso, ao menos desde quando no fim do s culo passado Gaetano Mosca expôs sua teoria da classe pol tica, chamada, por influencia de Pareto, de teoria das elites. O princípio inspirador do pensamento democrático sempre foi a liberdade entendida como autonomia, isto é, como capacidade de das leis a si próprio, conforme a famosa definição de Rousseau, que deveria ter como consequência a perfeita identificação entre quem dá e quem recebe uma regra de conduta e, portanto, a eliminação da tradicional distinção entre governados e governantes sobre a qual fundou-se todo o pensamento político. A democracia representativa, que é a única forma de democracia existente e em funcionamento, é já por si mesma uma renúncia ao princípio da liberdade como autonomia ”.
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