Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 1
R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 1, p. 146-168, set.-dez., 2019 152 TOMO 1 tya Sen 11 , pode-se alcançar “ o estado ótimo de Pareto havendo algumas pessoas na miséria extrema e outras nadando em luxo, desde que os miseráveis não possam me- lhorar suas condições sem reduzir o luxo dos ricos”. A situação levantada por Sen é demonstrativa do insulamento econômico e o seu divórcio das ciências sociais, sobretudo, da política. Isso porque um resultado alocativo pode ser apontado como positivo, ainda que socialmente injusto. A visão neoclássica da economia, dirigida ao afastamento da “ir- racionalidade política”, acabou absorvida pelas teorias de democracia. Joseph Schumpeter, autor da denominada teoria elitista da democracia 12 , sustentou que nas democracias das sociedades de massa o poder do capi- talismo de mercado aliado à endêmica corrupção social transforma as prá- ticas políticas democráticas em um espaço destituído de racionalidade 13 . A visão pragmática schumpeteriana de democracia, desvendando parte das suas insuficiências e desconstruindo a sua mítica de um regime de igualdade e governo do povo, constituiu o fundamento teórico para que a percepção da política como irracionalidade se tornasse um mantra do pensamento econômico. Com as contribuições lançadas por economis- tas desde o século XIX, o objetivo de afirmação científica da economia havia alcançado, assim, o seu destino. Além disso, como resultado de seu esforço para se distanciar das ciências sociais, a política saiu diminuída, assentando-se a ideia de que a governabilidade e a capacidade decisória do 11 SEN, Amartya. Sobre Ética e Economia . p 48. São Paulo: Cia das Letras, 1999. 12 Segundo o próprio autor, a sua teoria de democracia pode ser resumida como: “ Nossa definição passa então a ter o seguinte fraseado: o método democrático é um sistema institucional, para a tomada de decisões políticas, no qual o indivíduo adquire o poder de decidir mediante uma luta competitiva pelos votos do eleitor ” (SCHUMPETER, Joseph. Capitalismo, Socialismo e Democracia. p 328. Rio de Janeiro: Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1961). Outra síntese do pensamento de Schumpeter em relação à democracia, mas ressaltando o traço mercantil, é exposta por PATEMAN, Carole. Participação e Teoria Democrática. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992: “ Schumpeter comparava a competição política por votos à operação do mercado (econ mico): à maneira dos consumidores, os eleitores colhem entre as políticas (produtos) oferecidas por empresários políticos rivais, e os partidos regulam a competição do mesmo modo que as associações de comércio na esfera econ mica ”. 13 A indicação de ausência de racionalidade em regime decisório democrático pode ser lida na seguinte passagem: “ Mas, embora possa surgir ainda algum tipo de vontade comum ou opinião pública do emaranhado infinitamente complexo de situaç es, vontades, influências, aç es e reaç es individuais e coletivas do processo democrático, os resultados não apenas carecem de unidade, mas tamb m de sanção racional. A primeira significa que, embora do ponto de vista da análise, o processo democrático não seja meramente caótico — para o analista não será caótico aquilo que puder ser explicado — ainda assim os resultados não teriam significação por si mesmos, exceto por acaso, como teria, por exemplo, a concretização de qualquer objetivo ou ideal definido. O último significa que, não sendo mais essa vontade congruente com qualquer bem, para se reclamar dignidade tica para o resultado será agora necessário depender de uma injustificada confiança nas formas democráticas de governo, como tal, uma crença que, em princípio, teria de ser independente da desejabilidade dos resultados. Como vimos acima, não é fácil adotar esse ponto de vista. Mas, mesmo que o adotemos, o abandono do bem comum utilitário ainda nos deixa nas mãos uma série de dificuldades.(...) Partido e máquina eleitoral constituem simplesmente a reação ao fato de que a massa eleitoral incapaz de outra ação que não o estouro da boiada ”. SCHUMPETER, Joseph. Capitalismo, Socialismo e Democracia . p 309/310 e 345. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1961.
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