Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 1

 R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 1, p. 146-168, set.-dez., 2019  150 TOMO 1 Os questionamentos, na verdade, reproduziram um enraizado pensamento econômico que dissociou a economia da política, com o objetivo de conquistar autonomia científica. Por isso, cultivaram-se, ao longo do século passado, as ideias de que a política é um espaço de irracionalidade e que as práticas democráticas são entraves à eficiência econômica. Como resultado do processo histórico de afirmação cien- tífica da economia a partir do século XIX, a economia passou a ter como meta a descoberta de “leis naturais”, construídas logicamente e independentemente de valores e ideologias 6 . Com isso, difundiu-se a concepção de que a economia seria um espaço guiado por atributos universais, objetivos e conhecidos de maneira dedutiva, por meio de recurso a métodos matemáticos 7 . Embora a chamada economia clássica, também denominada de economia política, centrasse as suas preocupações nos vínculos entre política e economia, o surgimento de democracias de massa, durante o século XX, acentuou a urgência da dissociação entre as medidas eco- nômicas e as práticas democráticas. A multiplicação de atores sociais e a divergência de opiniões sobre os caminhos coletivos passaram a ser vistas como um obstáculo real à concretização de propostas desenha- das pela tecnocracia econômica. A lógica política , cuja preocupação de manutenção do poder priorizaria demandas imediatistas e populares junto ao eleitorado, foi afirmada como um entrave às propostas econô- micas que levariam ao encontro do desenvolvimento. Nesses termos, a chamada economia neoclássica se consolidou ao longo do século XX e foi responsável por arraigar a noção de que a lógica econômica seria superior à política e, principalmente, que os processos sociais de decisão se- riam destituídos de racionalidade . 6 Sobre o tema da busca pela neutralidade da ciência econômica e o seu pretenso distanciamento das ciências sociais são pertinentes os esclarecimentos de SEN, Amartya. Sobre Ética e Economia . São Paulo: Cia das Letras, 1999: “ Pode-se argumentar que a importância do enfoque ético enfraqueceu-se substancialmente no processo de desenvolvimento da economia moderna. A metodologia da as- sim chamada “economia positiva” manteve-se à distância da análise normativa; além disso, ela levou à ignorância de várias questões complexas que afetam o comportamento humano e que, do ponto de vista dos economistas que estudam tal comportamento, são mais questões de fato que de avaliações normativas. Examinando as publicações sobre economia nos nossos dias, é impossível não perceber a recusa da análise normativa profunda, e o desprezo da influência de consideraç es ticas na caracterização do comportamento humano real ”. 7 A autonomia da ciência econômica e a sua busca por se manter blindada das ciências e práticas sociais foi resumida por ABRAMOVAY, Ricardo. Entre Deus e o diabo : mercados e interação humana nas ciências sociais. Tempo Social. Revista de Sociologia da USP, v 16, n 2, p 35/64, 2004.

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