Revista da EMERJ - V. 21 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2019 - Tomo 1

149  R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, t. 1, p. 146-168, set.-dez., 2019  TOMO 1 mente e independentemente de valores e ideologias, tem sido fatal aos es- paços políticos e contribuiu para o cultivo do ódio à democracia. Embora a história recente da humanidade tenha levantado as virtudes da democra- cia, opondo-as ao horror do totalitarismo, chegou-se a um momento de crise profunda do ideal democrático, em que são crescentes as vozes que tolerariam a supressão de direitos políticos em troca de maior riqueza 3 . A tese defendida é que, sim, a democracia continua sendo “ a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tem- pos em tempos ” 4 e que os “ os defeitos da democracia demandam mais democracia, e em nenhum caso menos ” 5 . É preciso abandonar os modelos dicotômicos que negam a democracia para se alcançar o caminho da eficiência, ou que, inversamente, enxergam o mercado como uma forma de aprisionamento da humanidade. Mais do que nunca, deve-se buscar a conciliação dos im- perativos do governo democrático com o cálculo econômico de eficiência. III. A escola neoclássica da economia e a dissocia- ção da política Após a denominada crise financeira de 2008, as bases sociais dos Estados constitucionais do ocidente foram colocadas em questão. A confiança nos mercados e a sua capacidade de promover o bem-estar social havia sido desafiada e, diante da angústia de milhões de pessoas que perderam seus empregos, tiveram hipotecas executadas e que não contavam com reservas para a manutenção de gastos essenciais com saúde, moradia e educação, o mundo voltou a indagar qual é o papel do Estado na relação com a economia e, mais especificamente, se a democracia pode produzir resultados eficientes de desenvolvimento econômico e social . 3 Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, em fevereiro de 2014, constatou que 16% dos brasileiros são indiferentes ao fato de o governo ser uma ditadura ou uma democracia e 14% dos entrevistados indicaram que, em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que um regime democrático. Além disso, apenas 9% estão muito satisfeitos com o regime de- mocrático brasileiro. A pesquisa pode ser acessada na página eletrônica www.datafolha.folha.uol.com.br . De acordo com o Latinobarômetro de 2018, apenas 34% da população brasileira indica apoiar o regime democrático. Disponível em http:// www.latinobarometro.org/lat.jsp. Acesso em 23.08.2019. 4 A célebre frase de Winston Churchill foi proferida em discurso na Casa dos Comuns, em 11 de novembro de 1947. Confira-se, no original, o discurso: “ Many forms of Government have been tried, and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed, it has been said that democracy is the worst form of Government except all those other forms that have been tried from time to time; but there is the broad feeling in our country that the people should rule, continuously rule, and that public opinion, expressed by all constitutional means, should shape, guide, and control the actions of Ministers who are their servants and not their masters ”. 5 SEN. Amartya. El valor de la democracia . p 50. Espanha: El Viejo Topo, 2006.

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