Revista da EMERJ - V. 20 - N. 3 - Setembro/Dezembro - 2018

 R. EMERJ, Rio de Janeiro, v. 20, n. 3, p. 88 - 114, Setembro - Dezembro. 2018  89 um colaborador, mais de 3 bilhões de dólares, em grande parte empre- gados em subornos, caixa dois eleitoral e outros pagamentos ilícitos. As negociações estavam se desenvolvendo havia meses e, apesar da confiden- cialidade das tratativas, era notório que estávamos na reta final, chegando ao momento da assinatura. O Congresso estava em polvorosa. Além disso, dois acontecimentos haviam exacerbado a atmosfera de pânico do poder corrupto frente à Lava Jato: as prisões de dois ex-gover- nadores fluminenses, Anthony Garotinho e Sérgio Cabral Filho. No dia 16 de novembro, Garotinho, que governara o estado entre 1999 e 2002, foi preso preventivamente numa investigação de compra de votos conduzida pela Justiça Eleitoral. No dia seguinte, foi a vez de Cabral. Ele foi preso na 37ª fase da Lava Jato, em operação conjunta entre a Justiça do Paraná e a do Rio de Janeiro. Um dos políticos mais influentes da história do Rio, Cabral foi eleito três vezes deputado estadual, chegando a presidir a Assembleia Legislativa do estado (Alerj). Também se elegeu senador e duas vezes governador, o que lhe rendeu prestígio no PMDB, fazendo com que seu nome fosse cogitado para a presidência da República. Depois de governar o Rio entre 2007 e 2014, conseguiu eleger seu sucessor, o então vice-governador Luiz Fernando Pezão. Passando por uma grave crise financeira, o estado vinha sendo palco de inflamadas manifestações contra o pacote de medidas de austeridade de Pezão, que incluíam cortes em programas sociais, aumen- to de contribuições previdenciárias de servidores e reajuste das tarifas de transporte. Houve confrontos de manifestantes com a polícia, quando a sede do Legislativo estadual, o Palácio Tiradentes, chegou a ser invadida. O procurador Athayde Ribeiro Costa, da Lava Jato, que estava no comboio da Polícia Federal que conduziu Cabral para a cadeia, ficou impres- sionado com a reação da população: “Por onde passávamos, as pessoas gri- tavam, comemoravam, aplaudiam, buzinavam. A atmosfera era de euforia.” O ex-governador foi levado para o presídio de Bangu, onde teve a cabeça raspada, vestiu uniforme e, no café da manhã, recebeu pão com manteiga e café com leite. Ele era investigado por receber propinas na execução de diversas obras públicas: reforma do Maracanã, PAC Favelas, Arco Metropolitano e terraplanagem do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, o Comperj.

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