ARTE E PALAVRA

73 E stava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado, de horrendo aspecto. – Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? – disse o monstro arreganhando os dentes. – Espere, que vou castigar tamanha má-criação!... O cordeirinho, trêmulo de medo, respon- deu com inocência: – Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim? Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta. Mas não deu o rabo a torcer. – Além disso – inventou ele –, sei que você andou falando mal de mim o ano passado. – Como poderia falar mal do senhor o ano passado, se nasci este ano? Novamente confundido pela voz da inocên- cia, o lobo insistiu: – Se não foi você, foi seu irmão mais velho, o que dá no mesmo. – Como poderia ser meu irmão mais velho, se sou filho único? O Lobo e o Cordeiro M onteiro L obato La Fontaine a escreveu de um modo incomparável. Quem quiser saber o que é obra prima, leia e analise a sua fábula do lobo e do cordeiro.. . “ ” O lobo, furioso, vendo que com razoes cla- ras não vencia o pobrezinho, veio com uma ra- zão de lobo faminto: – Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô! E – nhoc! – sangrou-o no pescoço. Contra a força não há argumentos. – Estamos diante da fábula mais famosa de todas – declarou Dona Benta. – Revela a essên- cia do mundo. O forte tem sempre razão. Contra a força não há argumentos. – Mas há esperteza! – berrou Emília. – Eu não sou forte, mas ninguém me vence. Por quê? Porque aplico a esperteza. Se eu fosse esse cor- deirinho, em vez de estar bobamente a discu- tir com o lobo, dizia: “Senhor Lobo, é verdade, sim, que sujei a agua deste riozinho, mas foi para envenenar três perus recheados que estão bebendo ali embaixo.” E o lobo, já com agua na boca: “Onde?. E eu, piscando o olho: “Lá atrás daquela moita!”. E o lobo ia ver e eu sumia... – Acredito – murmurou Dona Benta – E de- pois fazia de conta que estava com uma espin- garda e pum! na orelha dele, não é? Pois fique sabendo que estragaria a mais bela e profun- da das fábulas. La Fontaine a escreveu de um modo incomparável. Quem quiser saber o que é obra prima, leia e analise a sua fábula do lobo e do cordeiro...

RkJQdWJsaXNoZXIy NTgyODMz