ARTE E PALAVRA
71 – Concluo, vovó, que as fábulas, mesmo quando não valem grande coisa, têm sempre um mérito: são curtinhas... – Muito bem. E você, minha filha? – Para mim, vovó, as fábulas são sabidíssi- mas. No momento a gente só presta atenção na fala dos animais, mas a moralidade nos fica na memória e de vez em quando, sem querer, a gente aplica “ele cuento”, como a senhora diz. – Muito bem. E você, Emília? – Eu acho que as fábulas são indiretas para um milhão de pessoas. Quando ouço uma, vou logo dando nome aos bois: este mono é o Tio Barnabé; aquele asno carregado de ouro é o Coronel Teodorico; a gralha enfeitada de pe- nas de pavão é a filha da Nhá Vera. Para mim, fábula é o mesmo que indireta. Dona Bentas voltou-se para o Visconde. – E que pensa das fábulas, Visconde? O sabuguinho assoprou e disse: – Na minha opinião, as fábulas mostram só duas coisas: 1º) que o mundo é dos fortes; e 2º) que o único meio de derrotar a força é a astúcia. Essa Liga das Nações , por exemplo. Os animais formaram uma liga, mas que adian- tou? Nada. Por quê? Porque lá dentro estava a onça, representando a força, e contra a força de nada valeram os direitos dos animais meno- res. Bem que a irara fez ver o direitos desses animais menores. Mas nada conseguiu. A onça respondeu com a razão da força. A irara errou. Em vez de alegar direito, devia ter recorrido a uma esperteza qualquer. Só a astúcia vence a força. Emília disse uma coisa muito sábia em suas Memórias... – Que foi que eu disse? – perguntou Emília, toda assanhadinha e importante. – Disse que se tivesse um filho só lhe dava um conselho: “Seja esperto, meu filho!”. Se não fosse a esperteza, o mundo seria duma brutali- dade sem conta... – Seria a fábula do lobo e do cordeiro gi- rando ao redor do sol que nem planeta, com todas as outras fabulas girando ao redor dela que nem satélites – concluiu Emília dando um pinote. Dona Benta calou-se pensativa.
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