ARTE E PALAVRA
68 U m lobo muito magro e faminto, todo pele e ossos, pôs-se um dia a filosofar sobre as tristezas da vida. E nisso estava quando lhe surge pela frente um cão — mas um cão e tanto, gordo, forte, de pelo fino e lustroso. Espicaçado pela fome, o lobo teve ímpeto de atirar-se a ele. A prudência, entretanto, cochi- chou-lhe ao ouvido: “Cuidado! Quem se mete a lutar com um cão desses sai perdendo”. O lobo aproximou-se do cão com toda a cautela e disse: — Bravos! Palavra de honra que nunca vi um cão mais gordo nem mais forte. Que pernas rijas, que pelo macio! Vê-se que o amigo se trata... — É verdade! — Respondeu o cão. — Confesso que tenho tratamento de fidal- go. Mas, amigo lobo, suponho que você possa levar a mesma vida boa que levo... — Como? — Basta que abandone esse viver errante, esses hábitos selvagens e se civilize, como eu. — Explique-me lá isso por miúdo — pediu o lobo, com um brilho de esperança nos olhos. É fácil. Eu apresento você ao meu senhor. Ele, está claro, simpatiza-se e dá a você o mes- mo tratamento que dá a mim: bons ossos de ga- linha, restos de carne, um canil com palha ma- cia. Além disso, agrados, mimos a toda a hora, palmadas amigas, um nome. — Aceito! — Respondeu o lobo. — Quem não deixará uma vida miserável como esta por uma de regalos assim? — Em troca disso — continuou o cão — você guardará o terreiro, não deixando entrar ladrões nem vagabundos. Agradará ao senhor e à sua família, sacudindo a cauda e lambendo a mão de todos. — Fechado! — resolveu o lobo e empare- lhando-se com o cachorro partiu a caminho de casa. Logo, porém, notou que o cachorro estava de coleira. — Que diabo é isso que você tem no pes- coço? — É a coleira. — E pra que serve? — Para me prenderem à corrente. — Então não é livre, não vai pra onde quer, como eu? — Nem sempre. Passo às vezes vários dias preso, conforme a veneta do meu senhor. Mas que tem isso, se a comida é boa e vem à hora certa? O lobo entreparou, refletiu e disse: — Sabe do que mais? Até logo! Prefiro viver magro e faminto, porém livre e dono do meu focinho, a viver gordo e liso como você, mas de coleira ao pescoço. Fique-se lá com a sua gordura de escravo que eu me contento com a minha magreza de lobo livre. E afundou no mato. — Fez muito bem! — berrou Emília. — Isso de coleira, o diabo queira... Narizinho bateu palmas. — E não é que ela fez um versinho, vovó? “Isso de Coleira o diabo queira...” Bonito, hein? — Bonito e certo — continuou Emília. — Eu sou como esse lobo. Ninguém me segura. Nin- O Cão e o Lobo M onteiro L obato
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