ARTE E PALAVRA

67 cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres. — Que fazia você durante o bom tempo? — Eu... eu cantava! — Cantava? Pois dance agora, vagabunda! — e fechou-lhe a porta no nariz. Resultado: a cigarra ali morreu entangui- dinha; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. É que falta- va na música do mundo o som estridente daque- la cigarra morta por causa da avareza da formi- ga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela? Os artistas — poetas, pintores, músicos — são as cigarras da humanidade. — Esta fábula está errada! — gritou Narizinho. — Vovó nos leu aquele livro de Maeterlinck so- bre a vida das formigas — e lá a gente vê que as formigas são os únicos insetos caridosos que existem. Formiga má como essa nunca houve. Dona Benta explicou que as fábulas não eram lições de História Natural, mas de Moral. — E tanto é assim — disse ela — que nas fábu- las os animais falam e na verdade eles não falam. — Isso não! — protestou Emília. — Não há animalzinho, bicho formiga ou pulga que não fale. Nós é que não entendemos as linguinhas deles. Dona Benta aceitou a objeção e disse: — Sim, mas nas fábulas os animais falam a nossa língua e na realidade só falam as linguinhas deles. Está satisfeita? — Agora, sim! Disse Emília muito ganjenta com o triunfo. — Conte outra.

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