ARTE E PALAVRA
66 A Cigarra e as Formigas M onteiro L obato I – A Formiga Boa H ouve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé de um formi- gueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formi- gas na eterna faina de abastecer as tulhas. Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas. A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhi- nho seco e metida em grandes apuros, delibe- rou socorrer-se de alguém. Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu — tic, tic, tic... Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina. — Que quer? — perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama a tossir. — Venho em busca de agasalho. O mau tem- po não cessa e eu... A formiga olhou-a de alto a baixo. — O que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa? A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois de um acesso de tosse. — Eu cantava, bem sabe... — Ah!... — exclamou a formiga recordando- se. — Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tu- lhas? — Isso mesmo, era eu... — Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos pro- porcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo. A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol. II – A Formiga Má Já houve, entretanto, uma formiga má que não soube compreender a cigarra e com dureza a repeliu de sua porta. Foi isso na Europa, em pleno inverno, quan- do a neve recobria o mundo em seu cruel man- to de gelo. A cigarra, como de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro, e o inverno veio en- contrá-la desprovida de tudo, sem casa onde se abrigar, nem folhinhas que comesse. Desesperada, bateu á porta da formiga e im- plorou — emprestado, notem! — uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimo, logo que o tempo o per- mitisse. Mas a formiga era uma usurária sem entra- nhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse
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