ARTE E PALAVRA
62 amarela e azul – e outro ao segurar seu próprio braço; a composição dos corpos dos meninos formam o clássico triângulo, como num quadro renascentista. Essa geometria dá sustentação ao garoto. Mas, no segundo em que eu cliquei, não vi nada disso. Quando eu estudei História da Arte, o André Dorigo chamava nossa atenção para a geometria das obras de arte. O fotógrafo procura a geometria da cena, presente na natu- reza, na composição da foto. É algo que o olhar mais treinado busca automaticamente. Hoje o meu olhar procura isso mesmo sem câmera. AP: O seu olhar vai sendo educado para ver essa geometria da natureza. E a Dança dos Fla- mingos ? Fale um pouco da história dessa foto. VL : Eu fui para o deserto da Patagônia pouco tempo depois que perdi meu pai. Decidi ir sozi- nha para lá, eu e a minha câmera. Bem, eu esta- va ali no deserto, vendo o por do sol. Já estava me preparando para ir embora e já ia tirar a câmera do tripé. De repente, eu vi um flamingo vindo. Ele pousou na água e foi vindo. Eu voltei para a câmera e aí vi que estavam vindo outros quatro flamingos. Eu fiquei absolutamente sem respirar. Um segundo. Eu pensei: “Vem, vem, vem”, porque eu queria que todos eles – os cin- co – estivessem juntos. Na hora que eles vieram, eu cliquei. AP: Foi um presente. VL : Essa foto está na minha casa em Itaipa- va, num espaço bem grande. Ela me trans- mite paz. AP: A foto remete à “insustentável leveza do ser”. VL : Exatamente isso. Ao registrar um instante, tem muita coisa sua: ao ver uma criança, um pai de bicicleta com o filho, uma pessoa mais velha... Alguma coisa sua faz com que você olhe para aquilo, e aquele olhar te leva a fotografar. AP: Tem algum lugar que você mais gostou de fotografar? VL : Tenho uma amiga que quando lhe per- guntam qual foi a melhor viagem que ela fez, ela responde: “A melhor é a próxima”. É assim mesmo. Eu tenho uma parede na minha sala de jantar que está vazia. Não consigo escolher a foto para colocar nela. Não consigo. Porque a melhor é sempre a próxima. AP: Você tem uma câmera para “chamar de sua”? VL : Eu tenho uma Canon Mark IV , uma câmera mais robusta, com uma gama maior de recur- sos. Tenho várias lentes, das grande-angulares às teleobjetivas. Para o dia a dia, tenho uma câ- mera de bolsa, uma Leica portátil. Os celulares estão cada vez mais parecidos com câmeras, mas não é igual. Prefiro sempre fotografar com uma câmera. AP: Você tem alguma próxima aventura mar- cada? VL : Vai depender da pandemia dentro e fora do Brasil. Na verdade, viajar para fora do Brasil dependerá de dois fatores: a pandemia deixar e a cotação do dólar permitir. AP: Independente desses dois fatores, você tem algum plano? VL : Quero participar de outra vivência no Mara- jó, que o Luís Braga está organizando, prevista para abril ou maio, e tenho planos de conhe- cer a Amazônia, o Jalapão e os cânions do Rio Grande do Sul. Fora do Brasil, quero voltar à Patagônia. AP: Quando você tira férias, as suas viagens são para fotografar? VL : Eu divido as minhas férias: sempre que dá, viajo alguns dias com as minhas filhas, e na ou- tra parte das férias, viajo para fotografar.
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