ARTE E PALAVRA

61 vermelhas do outono. É um frio de matar. Um vento que a gente anda de costas. Precisa estar de luvas, claro, mas para conseguir clicar com precisão, tem que tirar o dedinho da luva, e ele fica congelado. Além disso, tem a mochila cheia de equipamentos, o tripé, as botas pesadas, o casaco... A gente desafia tudo pelo prazer do sol nascendo, a luz batendo nas montanhas, e a gente ali, fotografando aquele instante. Fotógra- fo é um bicho doido. AP: Mas o artista não é uma pessoa “nor- mal”, nenhum artista de verdade é. Quando Picasso estava pintando Guernica, ficou horas de cócoras desenhando um cantinho do qua- dro. Quando acabou, não conseguia levantar- se, estava entrevado. Quando o artista está envolvido com a criação, ele não sente dor, cansaço, medo. A criação gera uma força, uma energia imensa, mas quando passa, ele percebe o que fez. VL: Quando estive no Nepal, eu estava no hotel com mais cinco amigas. Eu queria ver o nascer do sol. Eu pedi uma indicação para o gerente, e ele me indicou um motorista de táxi. Bem, esse motorista me levou às quatro da manhã para um lugar super estranho. A gente subiu num prédio, numa caixa d’água, e eu carregando o tripé e uma bolsa com o equi- pamento. Ele subia na frente, puxava minha bolsa, o tripé e depois me puxava. E lá, no alto da caixa d’água, eu vi e fotografei o nascer do sol do Nepal. As minhas cinco amigas no hotel, dormindo. AP: É a tal história do Picasso. Você estava movida pelo desejo de descobrir, de se expres- sar. Bem, fale um lugar em que ainda não este- ve e que tenha vontade de fotografar ou algum ao qual tenha vontade de voltar. VL : A Antártica. Mais um desafio. Quero voltar ao Pará e à Patagônia. AP: Qual foi a última viagem que fez para fo- tografar ? VL : Fui para a Noruega em 2019, no meu aniversário de 60 anos. Já havia estado lá. Nessa última vez, eu fotografei os fiordes lá de cima. É lindo. O Ártico é punk! AP: Vamos conversar sobre as fotos que es- tão na revista? Fale sobre a foto do menino na praia do Leblon com o morro Dois Irmãos ao fundo... VL : O garoto estava indo em direção ao mar. Eu fui vendo aquele menino, o movimento do corpo dele... De repente, eu vi o reflexo do sol na mão dele em concha. A leveza, o movimen- to, o jeito dele rindo... É o meu “ Menino do Rio ”, nome que eu dei para a foto. AP : E sobre as Bonecas, do Nepal? VL : Essas bonecas manipuláveis são um artesa- nato típico do Nepal. O que me impressionou muito no Nepal e na Índia foram as cores. Esse conjunto de bonecas formava um todo leve, ale- gre, mas triste ao mesmo tempo. AP: Parece que as bonecas estão no proscênio de um pequeno teatro. VL : Foi essa a sensação que eu tive quando vi. Como falei, o olhar vai sendo mais treinado para ver algo mais. Na hora, a gente nem tem consciência, mas teu olhar te puxa para a cena. Depois você traduz porque aquilo chamou a sua atenção. AP: E a foto “Meninos de Joanes”? Eu olhei aqueles meninos, a casa amarela, as co- res e a luz da cena, e me impressionaram. Mas ti- nha mais coisa por trás daquele quadro. Depois, olhando a foto, vi a sua geometria: os retângu- los amarelo e azul ao fundo no muro; o braço levantado do outro menino forma um ângulo com o gesto da sua mão; os triângulos no corpo do menino central – no desenho da sua camisa

RkJQdWJsaXNoZXIy NTgyODMz