ARTE E PALAVRA

60 digital, nós passamos a seguir gente de todos os cantos do mundo, pelo Instagram , por sites, blo- gs. Formamos uma rede de fotógrafos que se comunicam um com o outro permanentemente. Essa rede amplia e diversifica o olhar. A foto- grafia me dá constantemente a oportunidade de fazer novos amigos. Nós temos um grupo de WhatsApp, do qual o Luciano Candisani e o Cris- tiano Xavier fazem parte, em que a gente se fala praticamente todos os dias. AP: A sua fala vem carregada de emoção. A fotografia faz parte de você. VL : É uma necessidade. Nós, brasileiros, esbar- ramos numa questão que nos limita: a violência urbana. Na Índia, eu colocava o meu equipa- mento e ia para qualquer canto; no Nepal, não tive problema algum, assim como na Europa. Há lugares belíssimos no Rio e no Brasil como um todo que a gente não está fotografando. AP: Vera, fale um pouco sobre as suas “vivên- cias” em fotografia. VL : A gente se emociona muito quando foto- grafa. Há uns quatorze anos, eu fiz meu primei- ro workshop de fotografia, com o Walter Firmo. O grupo se encontrou com ele em Jericoacoara , no Ceará, e fomos de carro até os Lençóis , no Maranhão. As cidades no entorno são todas muito pobres, as crianças com barriga d’água... Tudo vai te emocionando: a natureza, as pes- soas... Essa emoção é que me conduz quando registro os momentos. AP: Conte-nos sobre a vivência no Círio de Nazaré, em Belém. VL : O Luiz Braga, que é paraense, chamou alguns fotógrafos para irem a Belém e verem de perto o Círio . Como eu estava com o crachá, consegui ficar dentro do cordão de isolamen- to, bem atrás da berlinda da imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Realmente, você precisa viver aquilo ali, olhar, para depois fotografar. Porque é muito emocionante, aquelas pessoas andando com dificuldade, a fé do povo, a cor- rente de solidariedade, aquela garotada, jovens ali do Pará que vão distribuindo água para os peregrinos, as pessoas em volta com as mãos estendidas... Então você para de fotografar para registrar na memória esse momento tão emocionante. Só no dia seguinte, mais leve, eu consegui fotografar, com toda a carga de emo- ção do dia anterior. AP: As “vivências” são um grande diferencial na sua trajetória como fotógrafa? VL : Você tem um outro olhar para o que está registrando, busca encontrar o melhor foco... Acompanha o movimento... Quando fui ao Pantanal, com o Luciano Candizani devo ter tirado mil fotos de onça. As fotos da “vivência” no Marajó, tiradas de dentro das casas das pes- soas, elas me emocionam muito. Eu me lem- brava daquela música do Chico Buarque: (can- tarola) “ ...que é gente humilde, que vontade de chorar.” O que que me mantém fiel à fotografia? É a busca dessa emoção. Muitas vezes o sentimen- to é de tristeza ao ver a miséria, o abandono dessas pessoas. Não estou falando só do Brasil, mas também do Nepal, Índia, Tanzânia... As pessoas são muito pobres. Seria lindo fotogra- far uma rua em Paris, o povo na França, acho muito bacana. Mas me emociona demais ver esse outro lado do mundo. AP: E o lugar mais fantástico que você foto- grafou? VL : O lugar mais incrível para mim foi a Pata- gônia. Em termos de natureza, é deslumbrante. Eu já estive no Nepal, Himalaia, Tanzânia... E é difícil dizer qual é o lugar mais bonito. São belezas absurdas, mas a Patagônia testa a sua resistência. Qualquer pessoa normal vai para as Torres del Paine de novembro a fevereiro, porque é a época menos fria. O fotógrafo não, ele vai em abril ou maio, em busca das cores

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