ARTE E PALAVRA

59 no, uma montanha, estou expressando a emo- ção daquele momento, a minha bagagem cultu- ral, tudo aquilo que eu sinto. Sempre gostei de guardar a emoção na memória e no coração. AP: Como você relaciona a atividade da foto- grafia com o exercício da magistratura? VL : Um dos meus professores de fotografia fala assim: “foco no olho do bicho”. Você vai em busca da expressão do bicho, seja ele de quatro ou duas patas. Na EMERJ, eu tive uma profes- sora de Direito Penal que se dizia capaz, pela experiência, de “reconhecer um bandido pelos olhos”. A fotografia vai apurando o olhar, per- mitindo que você decifre melhor as expressões. Em audiência, quando a expressão de alguém me parecia “desfocada”, fora do lugar, aquilo me sinalizava que a pessoa não estava falando a verdade. Aí eu marcava outra audiência, porque não me sentia segura para dar a sentença. Isso tem relação com o olhar mais acurado: “foco no olho do bicho”. Por outro lado, a vivência em vara de família suavizou o meu olhar, e eu parti em busca de um outro tipo de fotografia: a fotografia da “vivência”. AP: Então o seu olhar ficou mais “focado” para a magistratura e mais “humano” para a fotografia? VL : Decifrar emoções tem a ver com estar mais focado. Um dos lugares mais fantásticos que eu já fotografei foi a Ilha de Marajó, no Pará. Fui com o Luiz Braga, um dos maiores fotógrafos que a gente tem. Ele fala assim: “vamos fazer a ‘vivência’ do Marajó, sentir o povo, a cultura, o entorno, a natureza...” Lá é tudo muito simples, pobre, mas o povo é alegre, nas casas é tudo muito colorido: o sofá, a almofada, a cortina... Ao fazer a vivência e conhecer melhor a forma como aquelas pessoas vivem, registramos a cul- tura do nosso povo. E você vai se transforman- do conforme vai conhecendo melhor como eles vivem dentro da sua cultura. Você pode ir à Ilha de Marajó para fotografar os animais, o pôr do sol, o rio..., mas, para mim, o principal é “sentir” o povo. As viagens que faço para fotografar são “vivências”. AP : Quando você começou a estudar fotogra- fia? VL : Uns quinze anos atrás. Fiz um curso no Ateliê da Imagem . Fiz também um curso de His- tória da Arte com o André Dorigo 2 que foi fun- damental. Depois não parei mais de estudar, fiz vários workshops e cursos com grandes fotó- grafos: Cristiano Xavier 3 , Jeremy Walker 4 , Jor- ge Santos 5 , Luciano Candisani 6 , Luiz Braga 7 , Marcello Cavalcanti 8 , Priamo Mello 9 , Walter Firmo 10 , Kah-Wai Lin 11 , William Yu 12 , Erico Hiller 13 . Participo de vários grupos de fotogra- fia, com aulas teóricas e saídas práticas; tem os grupos oriundos das viagens; tenho um grande amigo, o Marcello Cavalcanti, que me convida pra fazer fotos quando tem uma saída bacana, como a da superlua; além de um gru- po de amigos com quem combino também de sair para fotografar. AP: Esse diálogo com profissionais renoma- dos, que têm muita experiência e técnica, e com outros fotógrafos em formação é muito importante para o seu desenvolvimento? A fo- tografia precisa dessa troca permanente? VL : É fundamental. Não consigo me ver sem dialogar com os meus grandes mestres e amigos do mundo da fotografia. Hoje, com o mundo 2 https://andredorigo.com.br/ 3 http://cristianoxavier.com/ 4 http://www.jeremywalker.co.uk/web/index.php 5 https://iphotochannel.com.br/jorge-santos/ 6 https://lucianocandisani.com 7 http://www.luizbraga.fot.br/bio.html 8 https://marcellocavalcanti.com.br 9 https://www.priamomelo.com.br/home/biografia/ 10 https://ims.com.br/titular-colecao/walter-firmo 11 https://kahwailin.com/ 12 https://www.williamyuphotoworkshops.com/ 13 https://www.ericohiller.com.br/

RkJQdWJsaXNoZXIy NTgyODMz