ARTE E PALAVRA
45 O intelectual atuante e a temática racial No contexto da produção das obras do escritor carioca, o componente mais forte do discurso nacionalista girou em torno da ideia de raça, argumento pretensamente de saber técnico para justificar exclusão, violência, degradação. É forte a preocupação de Lima Barreto com a racialização na cultura brasileira, concomitante à repressão violenta das manifestações culturais de matriz africana, sendo estas oprimidas, segregadas ou tornadas invisíveis em nome do saneamento e da higiene em busca do progresso. Em crônica de 16 de agosto de 1919 para o jornal A.B.C. , Lima Barreto realiza uma longa exposição sobre os argumentos adotados pelos intelectuais para justificar a matança de grupos negros nos Estados Unidos e, indiretamente, naturalizarem o mesmo procedimento no Brasil e demais países em nome da Ciência. A crônica começa com a citação do livro Le Préjugé des races (1906), do sociólogo francês Jean Finot (1856-1922), um dos poucos teóricos franceses contrários à teoria das raças no período. Em carta ao sociólogo francês Célestin Bouglé (1870-1940), discípulo de Durkheim e professor de Sociologia na Sorbonne, diz o escritor: “ ao ler seu belo livro, observei que o senhor está a par das coisas da Índia e pouco sabe sobre os mulatos do Brasil. Nas letras brasileiras, já florescentes, os mulatos ocuparam lugar de destaque. O maior poeta nacional, Gonçalves Dias, era mulato; o mais erudito dos nossos músicos, espécie de Palestrina, José Maurício, era mulato; os grandes nomes atuais da nossa literatura – Olavo Bilac, Machado de Assis e Coelho Neto – são mulatos” 7 . Mas são as obras de ficção que aprofundam o debate sobre raça e gênero, explorando em contos como O filho da Gabriela e o romance Clara 7 BARRETO, Afonso Henriques de. Correspondência . Tomo 1. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1956, p. 158. Destaco os termos “mulato” e “mulatos”, usados por Lima Barreto para se referir a pessoas pardas, expressão comum à época em que publicou suas obras. dos Anjos . O destacado uso da cor em Clara dos Anjos permite o mergulho na consciência da personagem e a percepção de como é atingida profundamente pelas pressões sociais, vindas da educação que recebera, da cor da pele, por ser mulher e pobre. As técnicas impressionistas permitem explorar o doloroso processo de amadurecimento da subjetividade para cultivar uma consciência crítica: numa espécie de drama com imagens, revelam-se as tensões e dilemas das subjetividades silenciadas e invisíveis. Tudo feito a partir de estratégias variadas, como as do impressionismo literário, a problematização das fronteiras entre os gêneros literários, entre outras, para expressar a força de sua literatura crítica, rebuscada e militante. A obra de Lima Barreto nos faz pensar, sor- rir, provoca tanto quanto nos diverte e, como toda boa literatura, “ faz girar os saberes, não fixa, não fetichiza nenhum deles; ela lhes dá um lugar indireto e esse indireto é precioso ” 8 . Por isso, seus textos precisam ser mais lidos e explorados na variedade de sua forma, na intensidade do embate entre lingua- gem e novas tecnologias e no diálogo crítico com a tradição literária e cultural. 8 BARTHES, Roland. Aula . Tradução de Leyla Perrone-Moi- sés. São Paulo: Cultrix, 1989, p. 18. C armem N egreiros Professora do Instituto de Letras da UERJ, doutora em Teoria Literária (UFRJ), coordenadora do LABELLE (Laboratório de estudos de Literatura e cultura da Belle Époque), pesquisadora do CNPq, Cientista de Nosso Estado FAPERJ (2021-2024) e Procientista UERJ/FAPERJ. Possui artigos e livros sobre o escritor Lima Barreto; entre eles, o volume Lima Barreto, junto com Antonio Houaiss (Coleção Archives/Unesco, 1997), e Lima Barreto em quatro tempos (Ed. Relicário, 2019).
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