ARTE E PALAVRA

44 de construção de ferrovias e de linhas telegráfi- cas. Para ler a nação, Lima Barreto opta por ou- tro tempo de escrita, a ficção, especialmente com Triste fim de Policarpo Quaresma , romance incontor- nável no conjunto das obras de Lima Barreto e que merece leitura e releitura nos dias de hoje. Os primeiros capítulos da obra já expõem as fissuras na noção de brasilidade e de povo pelas ações do protagonista, que enfrenta os tempos disjuntivos da brasilidade, paga com a vida por concluir que “a pátria era um mito” e expõe ao leitor onde assimilara essas narrativas de nação: nos livros de Literatura, de História, nas narra- tivas de viagens, nas canções e lendas etc. Dis- positivos discursivos que plantaram “palmeiras e sabiás”, símbolos de uma natureza “exuberante” em nosso imaginário. Discursos que negam a questão estrutural que atravessa a cultura brasi- leira e trinca a imagem homogênea de brasilida- de: a escravidão (indígena e negra), matriz da violência, do autoritarismo no controle de corpos e sujeitos excluídos, estigmatizados, recolhidos compulsoriamente ou expulsos da pátria amada. Num sofisticado processo de conhecimento da realidade cultural e de autoconhecimento, o personagem, quando aprisionado no fundo de um calabouço, repassa as escolhas feitas e todo o sistema de ideias que o levaram ao “ triste fim ”. Com o tupi, “ encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e o levou à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros ”. E completa: “ A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio de seu gabinete ” 5 . Essa frase de Policarpo, muito citada nos estudos sobre a obra, evidencia a estratégia muito interessante do escritor cario- ca para se posicionar a contrapelo dos discursos 5 BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1956, vol.2, p. 285. nacionalistas que buscavam respostas para as per- guntas: O que é o Brasil? Quem são os brasilei- ros? Pátria para quem? Se Policarpo Quaresma fracassa em sua aventura, enriquece duplamente a experiência dos que o leem. Revela os elementos que cons- troem os vínculos imaginários também criados pela literatura – sobretudo o romance – para produzir o que Benedict Anderson chamou de “ comunidade imaginada ”, correspondente ao senti- do de nação 6 . E permite ao leitor a percepção de que a cultura nacional constitui um sofistica- do sistema de representação cultural, com estru- tura de autoridade e poder, e que a Literatura também o integra. Ao lado de outros discursos, a Literatura ensinou aos brasileiros em qual es- pelho eles deveriam se mirar para se reconhece- rem enquanto compatriotas, mas, nesse espelho, não estavam representados os negros, os indíge- nas, os pobres, as mulheres. Essas são categorias vistas como inferiores e, portanto, deveriam ser higienizadas, tuteladas, embranquecidas e sub- missas. E, para o leitor de hoje, Triste fim de Poli- carpo Quaresma demonstra que a problematização da identidade cultural faz parte de um processo tenso desde o início do século XX e alcança os nossos dias. 6 ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. “ ” É forte a preocupação de Lima Barreto com a racialização na cultura brasileira, concomitante à repressão violenta das manifestações culturais de matriz africana, sendo estas oprimidas, segregadas ou tornadas invisíveis em nome do saneamento e da higiene em busca do progresso.

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