ARTE E PALAVRA
43 escritos, desenha-se a cidade que se moderniza com um esdrúxulo planejamento urbano, que a deixa frágil e sujeita a antigos problemas, como as enchentes, provocadas pelas chuvas de verão. “ O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê das chuvaradas, mais ou menos vio- lentas, para viver a sua vida integral ” 3 . Suas crônicas envolvem também uma preocupação ecológica quanto à destruição dos espaços verdes pela es- peculação imobiliária; o fim das plantações nos quintais suburbanos; o avanço da extensão da cidade para os então chamados areais de Copa- cabana e o abandono dos subúrbios habitados. O movimento do cronista pela cidade flagra ain- da uma interessante correlação entre a leitura dos jornais e o espetáculo urbano. De um lado, a im- prensa e sua exploração sensacionalista dos cri- mes e acontecimentos trágicos e de seus persona- gens; de outro, o intenso desejo de realidade do público que anseia conferir, de perto, as circuns- tâncias, personagens e a trama, especialmente dos crimes passionais lidos nos jornais. A variedade de seções e atrações dos jornais funcionava como 3 BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Vida urbana . Rio de Janeiro: Brasiliense, 1956, vol.11, p.77. Ler as crônicas de Lima Barreto, portanto, permite acompanhar o nascimento da cultura midiática no Rio de Janeiro, do começo do século XX, ao lado da carência de moradias, dificuldades e problemas não resolvidos de saneamento, esgoto, abastecimento de água, enchentes gigantescas com as chuvas de verão, alugueis altos, inflação e abandono das periferias à própria sorte e a violência policial. Nada que pareça estranho ao carioca do século XXI. ” iniciação à leitura por meio de recursos como as ilustrações, a interpelação do leitor, a in- serção de estruturas das narrativas populares, especialmente relatos de crimes com os ape- los sinestésicos na redação sensacionalista de notícias. E vale destacar a crítica do escritor à projeção, nos jornais, da vida íntima de anô- nimos, cujas ações, emoções e opiniões tor- nam-se públicas e são tratadas com relevân- cia. “ Tipos ricos e pobres, néscios e sábios, julgam que as suas festas íntimas ou os seus leitores têm um grande interesse para todo mundo ” 4 . Ler as crônicas de Lima Barreto, portanto, permite acompanhar o nascimento da cultura midiática no Rio de Janeiro, do começo do século XX, ao lado da carência de moradias, dificuldades e proble- mas não resolvidos de saneamento, esgoto, abastecimento de água, enchentes gigantes- cas com as chuvas de verão, alugueis altos, inflação e abandono das periferias à própria sorte e à violência policial. Nada que pareça estranho ao carioca do século XXI. A viagem de Policarpo Quaresma e a nação Lima Barreto participa do debate incita- do por médicos, engenheiros, educadores e literatos, nas décadas iniciais do século XX, sobre o que é Brasil e quem são os brasilei- ros. Idealizaram projetos de nação, tendo a Ciência como forte aliada na defesa do sa- nitarismo, eugenia e branqueamento como soluções para o país. Uma série de viagens e expedições foram projetadas para o interior do país, e as mais inspiradoras foram a de Eu- clides da Cunha para a região conflagrada de Canudos e o impacto de Os Sertões para toda a intelectualidade; as expedições científicas de Oswaldo Cruz; e os projetos modernizadores 4 BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Vida urba- na . Rio de Janeiro: Brasiliense, 1956, vol.11, p.54.
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