ARTE E PALAVRA
42 A fonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 1881, sete anos depois da Abolição da Escravatura no Brasil, e faleceu em novembro de 1922, meses depois da Semana de Arte Moderna. É um dos escritores mais conhe- cidos da literatura brasileira, mas sua produção é lida, muitas vezes, apenas pelo viés biográfi- co, isto é, considerando a maneira como viveu, com quem e como se relacionou e qual atuação teve na vida literária como aspectos preponde- rantes na recepção de seus textos. No entanto, suas obras, distribuídas em diferentes gêneros (ro- mances, contos, crônicas, diários, cartas, sátiras, esboços de peças de teatro, cadernos), revelam as múltiplas faces do talento do escritor. A crônica e a cidade Nas décadas iniciais do século XX, as novas tecnologias de transporte, comunicação e distri- buição de mercadorias, veículos e sujeitos concre- tizam práticas de mobilidade e circulação, eixos marcantes do crescimento do capitalismo. O ce- nário desse processo, no Brasil, é o Rio de Janei- ro, que protagonizou os efeitos dessas mudanças na intensificação da vida sensorial, na vivência de novas experiências no corpo e na percepção do ser humano. Nas ruas que se modernizam, tor- nam-se referências a Avenida Central, reformada a partir do modelo político e metodológico pari- siense, e a Rua do Ouvidor, local onde a moda atualiza os hábitos e atitudes, na exposição de vitrines com produtos sofisticados e tornando-se, a própria rua, espaço para a exibição da moder- nidade nos corpos e atitudes, devidamente regis- trados pelos flashes das Kodaks dos jornalistas ou binóculos dos transeuntes. Carmem Negreiros Com o crescimento vertiginoso do espaço urbano, já não é mais possível a visão total da cidade, e a crônica vai mostrar a cidade em frag- mentos - como registros de cenas para os leitores -, desde lugares efervescentes de luxo e esplendor até ruelas - esburacadas, mas quase íntimas e ca- pazes de contar história. Observador em deslocamento constante, Lima Barreto fez da viagem urbana – de trem, bonde ou a pé – estratégia para ver a cidade e sua gente por meio de múltiplas perspectivas, como afirmava: “ Sou andarilho de vocação [...] gosto de estar em lugares em que as cenas variem e venham a se representar, às vezes, algumas imprevistas ” 1 . No passeio de cronista que analisa os melhoramentos urba- nísticos, há reflexões sobre a cidade e verifica-se nelas o vigor do crítico pertinaz das reformas, do autoritarismo que as reveste, do distanciamento das realidades sociais que as caracteriza. Entre outras coisas, Lima Barreto chama a atenção para a rapidez na substituição dos espaços no novo planejamento da cidade, a ser desenhada para consumidores, e aponta o abandono de soluções para as necessidades básicas de cidadania, como moradia, educação e renda básica, que coexis- tem com a exposição do luxo, de novas tecnolo- gias, da moda e dos discursos civilizadores, tudo “cenografia” 2 , na expressão do escritor. Nos seus 1 BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Marginália . Rio de Janeiro: Brasiliense, 1956, vol.12, p.170. 2 Em Os bruzundangas , texto satírico de Lima Barreto, a refor- ma urbana é tratada como uma “mutação de teatro” ou “cenogra- fia”: “[...] e eis a Bruzundanga, tomando dinheiro emprestado, para pôr as velhas casas de sua capital abaixo. De uma hora para outra a antiga cidade desapareceu e outra surgiu como se fosse obtida por uma mutação de teatro. Havia mesmo na cousa muito de cenogra- fia.” (BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Os Bruzundan- gas . Rio de Janeiro: Brasiliense, 1956, vol.7, p. 106). Lima Barreto, as múltiplas faces de um escritor
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