ARTE E PALAVRA
38 É Natal! As ruas estão cheias de pes- soas que procuram os melhores presentes para seus amigos e fa- miliares. E eu sem saber como fazer para dar a minha filha adolescente aquela linda bici- cleta cor-de-rosa que enfeitava a vitrine do grande magazine, atraindo o olhar das meninas que passavam na calçada. Para que fora eu passar ali? Estava devendo ao Cheque Especial, ao cartão de crédito, e meu limite financeiro estava estourado, mas eu queria dar a ela a bicicleta cor-de-rosa. Dormia e acordava com aque- la ideia obsessiva e sonhadora; não deixaria passar o Natal sem dar-lhe o presente escolhido, aliás como sempre fazia todos os Natais. Mas realmente, não poderia ou... não deveria, porque muito devia. Aí, pensei... e se o sistema da financeira falhasse e me apresentasse algum crédito a oferecer? Fiz pensamento positi- vo, uni as mãos em prece muda e fui a Madureira, acreditando que por ser a agência mais dis- tante do Centro, talvez falhasse; e não deu outra, havia, não sei como, um valor disponível a ser emprestado, exatamente o pre- ço que o magazine pedia pela bicicleta cor-de-rosa. Eu ia me empenhar mais um pouco no crédito nada fá- cil na hora de pagar, mas quem poderia deter a alegria naquele Natal que não se repetiria? Fiz o empréstimo e fui bus- car o objeto dos nossos dese- jos. Era véspera de Natal, ruas supermovimentadas; como eu faria para trazer a bicicleta se não tinha dinheiro sequer para o carreto, se nem sabia peda- lar...? Dormia e acordava com aquela ideia obsessiva e sonhadora; não deixaria passar o Natal sem dar-lhe o presente escolhido, aliás como sempre fazia todos os Natais. A bicicleta cor-de-rosa ou o direito social ao crédito O magazine situava-se num centro comercial a três bairros de distância do que eu morava, mas eu era jovem... não tive dú- vida... ergui aos ombros o “ele- fante cor-de-rosa”. Caminhei muito, fui pa- rando, trocando de ombro, cheguei a casa com ombros sangrando e o coração aos pu- los...de felicidade. Hoje posso dar ao meu neto as camisas do time prefe- rido sem fazer crediário, e me lembro perplexa daquele dia em que o milagre aconteceu e o sistema falhou a meu favor; dei literalmente meu sangue, mas nunca fomos tão felizes, momentos que não se repetem. Inspiração: primeiro evento da EMERJ em parceria com o Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor realiza- do em 25/10/2021. https://www.youtube.com/wat- ch?v=Si6hlEcYnz8 L eni dos S antos M aia Mediadora judicial L eni dos S antos M aia “
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