ARTE E PALAVRA
37 Você tem razão, ele con- corda e faz esta pergunta: você vem, ou eu vou ao seu encon- tro? Envia a localização do ho- tel. Amanhã, na hora do café, conto todos os meus segredos, e você conta os seus. E se não houver amanhã? Ou se eu desistir? Ela fez essas duas pergun- tas suavizando a maquiagem do rosto. Usava uma meia-cal- ça preta; um par de brincos re- luzia nas suas orelhas. Sobre a cama, via-se um suéter branco de cola alta e um vestido azul -marinho. Nos seus lábios, um sorriso sereno, imperturbável. Estou aqui, vem! Ele apela juntando um emoji triste. Desolado, angustiado, ele não sabia qual era o passo se- guinte. Sabia que a vida não anda para trás. Na intenção de caminhar pelas ruas próximas ao hotel, talvez fazer um pas- seio de barco pelo Sena, ape- nas mover-se, qualquer coisa, desceu do quarto à recepção. Avançamos sempre, não im- porta o que se faça. Resolveu permanecer em Paris, ficar ali a semana programada. Como ainda chovesse, em vez de ca- minhar ou passear pelo Sena, dirigiu-se ao bar do hotel. Es- colheu um banco lateral ao balcão, fixando o olhar no co- lorido das garrafas. Apesar do desânimo, insistia em não para- lisar. Precisava absorver a frus- tração. Ela e o marido deviam estar nalgum restaurante estrela Michelin, ele imaginava. Sentia raiva de si, que bobalhão, um vexame. Toda pessoa que se apai- xona é incontrolável. Justificava-se. Então ele chamou o bar- man, pediu uma taça de cham- panhe. Enquanto esperava, apoiou os cotovelos no balcão e cobriu o rosto com a palma das mãos. Nessa escuridão, maior porque mantinha os olhos fechados, ele escutava a me- lodia de uma canção antiga: Star-crossed lovers. Faz parte das suas canções favoritas, na voz de Nat King Cole. Star- crossed lovers é expressão em inglês para designar um amor nascido sem uma boa estrela, por isso o casal será desafortu- nado. Parece uma música feita para ele. Outra imagem que o persegue é a cara de Jacques Brel cantando Les Vieux . As palavras soam ternas e cruéis, doem: os velhos falam com olhares, já não têm ilusões, vão da cama à janela, ao sofá, e voltam à cama; o seu mundo é pequeno. Ao provar o cham- panhe, percebeu que alguém se aproximava. Era uma mu- lher, conhecia aquele perfume floral amadeirado. Ia virar-se, não deu tempo. Antes um to- que de dedos macios acaricia- va seus cabelos despenteados. Inspiração: webinar sobre “Alie- nação parental, violência domés- tica e resquícios do patriarcado”, promovido pela 71ª reunião do Fórum Permanente de Direi- to de Família e Sucessões, em conjunto com a 99ª reunião do Fórum Permanente de Violência Doméstica, Familiar e de Gêne- ro; e com o Núcleo de Pesquisa em Gênero, Raça e Etnia (NU- PEGRE) da EMERJ, realizado em 14/5/2021. https://www.youtube.com/wat- ch?v=ZvjJ2dv9aGc J airo V asconcelos R odrigues C armo Magistrado aposentado, foi Coordenador Geral de Direito Civil da EMERJ, exercendo, hoje, a delegação do 4º Ofício de Registro de Títulos e Documentos da cidade do Rio de Janeiro. Escritor. Livros de contos publicados pela Editora 7 Letras: “Amores subversivos” (2014); “Histórias Inverossímeis” (2016); “O cão do teu olhar” (2018), traduzido para o inglês, francês e italiano.
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