ARTE E PALAVRA
36 O encontro seria dentro do Louvre, próximo ao qua- dro da Monalisa. Por volta do meio-dia, encontro tipo obra do acaso. Passava de uma da tarde, ela diz pelo WhatsApp que o marido resolveu de última hora vir junto, não havia hipó- tese de se verem. Você tem ra- zão, ela continuou sublinhan- do, não somos mais crianças. Só que estou apaixonado, tenho certeza, ele confessa. Não se compara o que sinto a nenhum sentimento anterior. É algo especial, acredita. Ela recebe a mensagem e silencia, nada responde. Apenas fecha os olhos como se cochilasse. Em menos de hora, saiu às compras. Precisava ver bolsas, sapatos, cosméticos; adorava testar novos perfumes e artigos de maquiagem, essas coisas. Anoitecia, ela escreveu longa mensagem, que iniciou ouvindo bossa nova. Começa- va a chover quando corrigiu a frase inicial: Presta atenção. Ela apagou “muita”, podia parecer autoritário, pedan- te. Acho que falei por alto, continuou, gosto de ir fundo, detesto pedaços. Ou assumo por inteiro, ou desisto. Viver a dois é fundir mãos, cabeça, coração. Você compreende? Temos de arrastar tudo o que carregamos, inclusive os trau- mas, como não usar o nome de Deus em vão. Gosto da ideia, também quero você inteirinha. Suas duas filhas sabem? E a psicóloga, soube que ela está grávida. Sei que tenho esses víncu- los. Amo minhas filhas. Mas isso não me satisfaz, estou se- guro disso. Desde o jantar em Pedro do Rio, isso é claro para mim. Sei que só você pode sa- tisfazer aquilo que me falta. Minhas filhas não preenchem o vazio que vivo, é como um buraco aberto no peito. Vou admitir, tenho pensa- do muito em você. Penso até quando estou nos braços do meu marido, que é um ho- mem bom, não merece trai- ção. É perigoso ficarmos a sós, arrisco não voltar atrás. Você tem certeza de me assumir por inteira? Tem certeza de que eu sou capaz de deixar tudo por você? Tenho certeza, ele respon- deu. Estou decidido. Não fosse o jantar de ani- versário, estaríamos vivendo nossas vidas normalmente, sem insônia, dúvidas, pesade- los, você concorda? O fato é que estivemos lá, ninguém muda a realidade. Não podemos riscar o dia em que adicionei seu contato. Im- possível retroceder, o jeito é seguir adiante, e juntos abrir- mos os caminhos que vamos caminhar. Sei muito pouco de você. Quero saber tudo que seja im- portante saber. Há tempo de sobra, não costumo guardar segredos. Como seria bom se não existisse passado nem futuro. A vida no presente, nada de esperar a manhã seguinte. Quase tudo que nos per- turba tem a ver com o passa- do ou com o futuro. Estar no presente é o certo, mas prati- camos isso muito mal. Bom se pudéssemos contro- lar as emoções. Parar de pensar é impossível. Podemos tentar a medita- ção, dizem que ajuda. Tenho uma amiga que faz uns exercícios que o budismo ensina. Eu não consigo nem a posição de me sentar com os pés apoiados e a coluna reta. Ela anexa um emoji de riso, prossegue. Imagina fechar os olhos e focar na respiração! Não me vejo inspirando e expirando pausadamente por mais de um minuto. Isso se aprende pratican- do. É como jogar tênis, tem de praticar. Não sei, a vida é cheia de desafios.
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