ARTE E PALAVRA
35 N ão foi paixão à primeira vista, dessas de olhar e cair de joelhos. No dia em que se conheceram, os dois foram a um jantar de aniversário em Pedro do Rio, distrito de Petrópolis. Além do casal anfitrião, com três filhos adolescentes, eles estavam entre os três casais convidados. Ele chegou acompanhado de uma garota sensacional, recém-formada em Psicologia; ela se casara havia dois anos com um namoradinho de escola, agora talentoso advo- gado no início de carreira. Viviam bem, felizes. Não fosse o WhatsApp , dificilmente voltava a en- contrar aquele homem de meia-idade, gentil e galante ao lado da jovem psicóloga. Ele pediu seu contato. Impossível recusar, tal a delicade- za; por cima, era cirurgião plástico. Trocaram mensagens simples, despretensiosas; nenhuma insinuação. Conversavam sobre séries de televi- são, faziam breves comentários. Ou falavam de romances, os mais famosos. Não havia mesmo sinais de segundas inten- ções. Prova disso é que as mensagens começa- ram a espaçar, cada vez menores, apressadas, irregulares. Ao fim de dois meses, cessaram. Na última semana do terceiro mês, a contar do jantar de aniversário, ela recebeu a confir- mação de um curso de imersão na língua fran- cesa, em Paris. Como estava vacinada contra o coronavírus, podia ingressar na França sem problema. Explodindo de alegria, contou a ele a novidade. Sabia que ele, na juventude, so- nhava ler Proust no original. Quando você for velhinho, ela brincou, podemos ler juntos, será Sob o céu de Paris J airo C armo divertido, não acha? A resposta dele surpreen- deu: tinham de se encontrar em Paris. Como terapia, para ele não enlouquecer. Como as- sim, se encontrar, ela questiona, meu marido vai, quero engravidar lá. Temos tudo planeja- do. Claro, que lindo, aproveitem, ele respon- deu, e emendou: é complicado viver pensando em você. Pensa o quê, ela pergunta. Não sei bem, foi a resposta. Ando confuso, nervoso, uma pilha. Vencidas as dúvidas e o talvez dê ou dá medo, ela decidiu antecipar em uma semana a viagem a Paris, o marido ia depois. Fazer compras longe dele era relaxante porque exa- minava as roupas com calma, sem olhar o re- lógio, podendo falar bobagens e rir com as vendedoras. Fica em paz, amor, ela disse ao marido, assim você participa do julgamento, faz sua sustentação oral e protocola o recurso no prazo. É o preço da fama de um advogado correto e competente. Para o cirurgião plásti- co, informa a hora do voo, e ele, em resposta, informa o hotel onde se hospedará. Na véspe- ra da viagem, entretanto, preocupada com a situação, ela sugere que ele desista, pelo amor de Deus, esse encontro é a maior loucura. Tudo correrá bem, não somos crianças, ele encorajava. Enfim, seja o que Deus quiser, ela concluiu ansiosa. – Favorzinho, não usa o nome de Deus. – Por quê? – Sou meio carnal, meio divindade. – E quem não é? – Trauma da infância, desculpa.
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